A gordura no fígado, chamada de esteatose hepática, é hoje a doença hepática mais comum do mundo. Desde 2023, as sociedades internacionais de hepatologia passaram a chamá-la de doença hepática esteatótica associada à disfunção metabólica (MASLD, na sigla em inglês). O novo nome deixa claro o que está por trás dela: obesidade, resistência à insulina, diabetes, colesterol alto e pressão alta, e não o álcool.
Quantas pessoas têm gordura no fígado
Uma grande meta-análise publicada em 2023 na revista Hepatology estimou a prevalência mundial em 30,1% dos adultos no período de 1990 a 2019. Na América Latina, a taxa foi a mais alta entre as regiões analisadas: 44,4%. Entre pessoas com obesidade e diabetes tipo 2, a proporção é ainda maior.
Sintomas: por que quase ninguém percebe
Na maioria dos casos, a esteatose não causa sintoma algum. Algumas pessoas relatam cansaço ou desconforto discreto no lado direito do abdômen. Normalmente, ela é descoberta por acaso em um ultrassom de abdômen ou em exames de sangue com as enzimas do fígado (TGO e TGP) alteradas.
Por que ela preocupa
Em parte das pessoas, a gordura provoca inflamação no fígado (esteato-hepatite, ou MASH). Com o tempo, essa inflamação pode gerar fibrose, que é a cicatrização do órgão, e, nos casos mais avançados, cirrose. Além disso, quem tem gordura no fígado tem risco cardiovascular maior. Infarto e AVC estão entre as principais causas de morte nesse grupo.
Quanto é preciso emagrecer para reverter
A perda de peso é o tratamento mais eficaz conhecido. Um estudo com 293 pacientes com esteato-hepatite confirmada por biópsia, publicado na Gastroenterology em 2015, mostrou uma relação direta entre o quanto se emagrece e o quanto o fígado melhora em um ano:
| Perda de peso | Resolução da esteato-hepatite | Melhora da fibrose |
|---|---|---|
| Menos de 5% | 10% | 7% |
| 5% a 7% | 35% | 21% |
| 7% a 10% | 64% | 33% |
| 10% ou mais | 90% | 45% |
Para uma pessoa de 100 kg, isso significa que perder 7 a 10 kg já muda de forma importante a saúde do fígado.
E os medicamentos?
Em 2025, o estudo ESSENCE, publicado no New England Journal of Medicine, avaliou a semaglutida 2,4 mg semanal em pessoas com esteato-hepatite e fibrose. Após 72 semanas, a inflamação desapareceu sem piora da fibrose em 62,9% dos pacientes tratados, contra 34,3% no grupo placebo. A fibrose melhorou em 36,8%, contra 22,4%. Medicamentos assim só devem ser usados com indicação e acompanhamento médico.
Quais exames investigam a gordura no fígado
- Ultrassom de abdômen, que mostra a presença de gordura.
- Enzimas hepáticas (TGO, TGP e GGT) e plaquetas.
- Índice FIB-4, um cálculo simples com idade, enzimas e plaquetas que estima o risco de fibrose.
- Elastografia, quando o FIB-4 indica risco intermediário ou alto.
Reduzir bebidas açucaradas e ultraprocessados, evitar álcool, praticar atividade física regular e tratar a resistência à insulina. O fígado costuma ser um dos primeiros órgãos a responder quando o peso começa a cair.
Perguntas frequentes
Gordura no fígado tem cura?
Na maioria dos casos, sim. A esteatose pode regredir com perda de peso e controle dos fatores metabólicos. Quanto mais cedo é tratada, maior a chance de reversão completa.
Quanto tempo leva para reverter a esteatose hepática?
Nos estudos, as melhoras aparecem em cerca de 12 meses de tratamento com perda de peso de 7% a 10%. O ritmo varia conforme o grau da doença e a resposta de cada pessoa.
Preciso fazer biópsia do fígado?
Raramente. Hoje, exames de sangue, o índice FIB-4 e a elastografia substituem a biópsia na maioria das situações.
Pessoa magra pode ter gordura no fígado?
Sim. Ela é mais comum em pessoas com excesso de peso, mas também aparece em quem tem peso normal e acúmulo de gordura abdominal ou resistência à insulina.
Referências
- Younossi ZM, et al. The global epidemiology of nonalcoholic fatty liver disease (NAFLD) and nonalcoholic steatohepatitis (NASH): a systematic review. Hepatology, 2023. Dados citados em HepatoBiliary Surgery and Nutrition.
- Vilar-Gomez E, et al. Weight loss through lifestyle modification significantly reduces features of nonalcoholic steatohepatitis. Gastroenterology, 2015;149(2):367-378.
- Sanyal AJ, et al. Phase 3 trial of semaglutide in metabolic dysfunction–associated steatohepatitis. New England Journal of Medicine, 2025. doi:10.1056/NEJMoa2413258. Resumo: HCPLive.
- Rinella ME, et al. A multisociety Delphi consensus statement on new fatty liver disease nomenclature. Hepatology / Journal of Hepatology, 2023.